Palestra da Migração com Traumas

Uso dois critérios primários pra escolher palestras: o título e o autor. Então, quando eu vi uma palestra do Deivi Kuhn intitulada "Migração com Traumas", eu sabia que tinha duas razões de estar lá. Não me arrependi. Além de deliciosamente sarcástico e um exercício em concisão, o título da palestra dele foi deliciosamente verdadeiro, condizendo tanto o que ele passou no SERPRO tanto como que ele efetivamente apresentou.

Na palestra, o Deivi narra as experiências obtidas desde 2004 em migrar uma grande porção dos usuários e sistemas do SERPRO de soluções proprietárias para soluções de software livre – basicamente, trocar milhares de Windows por Linux e Microsoft Offices por BrOffices, porém, com um monte de exceções e casos particulares que seriam mesmo de se esperar de uma empresa com as dimensões e a complexidade do SERPRO.

O Deivi começou com um guia bem passo a passo de como conduzir as etapas de levantamento e planejamento de uma grande migração desse tipo. Também contou como conduzir treinamentos, bem como detalhes importantes sobre quem selecionar para treinar e como treinar esses diferentes grupos. Segundo ele, não há necessidade de um "treinamento em Linux": em duas horas dá pra mostrar como operar o KDE, focando principalmente nas diferenças – no Linux não tem drive "A:" nem "C:", esses detalhes, e simplesmente não falar de tudo que é basicamente igual. Outro item importante é retreinar os power users (usuários sofisticados que já sabem bastante), pois esses tendem a ser os mais resistentes e são a referência para suas equipes.

Também citou que os usuários mais fáceis de converter são os que não entendem muito de computador, porque, pra eles, pouca diferença faz.

Muitos conselhos que ele deu se aplicam igualmente a qualquer migração: ter o apoio e comprometimento dos gestores, sensibilizar o público – mas ele deu umas dicas gerais sobre quais argumentos de sensibilização funcionam e não. Uma das analogias mais geniais que ele fez foi assim: "Antes do projeto, fizemos uma pesquisa de opinião e 89% dos funcionários se declaravam favoráveis à migração para o software livre. Mas veja: se você fizer uma pesquisa sobre se as pessoas são favoráveis à reciclagem de lixo, você terá números parecidos. Mas se reciclar significar eles andarem 300 metros para ir até a lixeira seletiva, eles não vão usar a lixeira seletiva."

Ele citou também o que muita gente já sabia: tentar sensibilizar os usuários finais apelando para a "liberdade" do software livre não funciona. Mas ele disse que eles respondem bem a diminuição de custos (sobretudo as gerências e os que têm de prestar contas) e, pra minha surpresa, a argumentos como "não ficar na mão de um fornecedor" e "ter o know-how", o que eu achei surpreendente.

Uma das partes mais divertidas da palestra foi o tratamento quase enciclopédico sobre as diversas desculpas que as pessoas davam para tentar adiar ou se esquivar das migrações, bem como as várias estratégias que eles usaram para rechaçá-las.

Foi uma palestra muito franca porque ele contou não só o que deu certo, mas várias coisas que deram errado – uma rodada de treinamentos em que houve 70% de desistência; o célebre problema de querer deixar tudo perfeito demais; e uma vez em que saiu uma versão nova da distro, diferente das que eles tinham testado, e que eles decidiram usar mesmo assim – com resultados previsivelmente catastróficos.

Talvez o causo mais delicioso e comovente que ele tenha contado foi uma situação onde um bug da Microsoft o deixou impotente para resolver um problema sério – e nem os próprios engenheiros da Microsoft sabiam o que fazer. "Nesse momento", ele contou, "percebi que meu MCSE não valia absolutamente nada. Se eu tivesse o código, eu poderia pelo menos tentar descobrir o problema. Talvez não conseguisse, mas eu poderia pelo menos tentar. Com o meu MCSE, eu não pude fazer absolutamente nada."

Não consigo deixar de traçar uma comparação entre as fascinantes histórias que o Deivi contou do SERPRO e a Tempest, por mais surreal que a comparação possa soar, dada as diferenças gigantes entre o tamanho e cultura das duas empresas. Na Tempest, todos os técnicos cuidam de suas próprias máquinas e usam o sistema operacional que quiserem. Lá, são cobrados apenas por resultados, então, quaisquer problemas de interoperabilidade, eles que têm de se virar pra resolver. Isso é possível porque a grande maioria da Tempest é composta de técnicos em informática, eles têm a formação pra isso – tenho plena consciência que em muitos lugares isso não seria viável.

A maioria dos técnicos usa Linux, de uns anos pra cá muitos têm sido seduzidos pelos Macs e o MacOSX e alguns gatos pingados usam Windows. Os servidores são quase exclusivamente Linux – temos um HP-UX aqui, um Solaris acolá, um Windowzinho ali. Muitos técnicos usam Windows em máquinas virtuais, sobretudo para testes. Já o pessoal do administrativo usa Windows e certa vez que tentei migrá-los enfrentei uma resistência tão violenta que achei melhor tentar novamente depois.

Mas, enfim, se você é gerente de TI de uma empresa grande ou média e quer economizar muito dinheiro com licenças de software e/ou quer ter know-how e controle real do seu parque computacional migrando em massa para software livre, converse com o Deivi – a experiência dele vai ser instrumental para o seu sucesso.

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Joao Lins | 2010-07-23 10:45:44 | permalink | topo

Na minha opinião a resistência maior para usuários não técnicos migrarem de Windows para Linux consiste em ferramentas similares ao Office não funcionar tão bem quanto o Office no Windows.

Pode parecer radical, mas no dia que tiver Office da Microsoft para Linux ou uma ferramenta Office de Linux que não abra os documentos feitos no Windows de forma desfigurada e que funcione ao dar os simples dois clicks do mouse para abrir sem perguntar nada sobre compatibilidade e etc, pode ter certeza, que qualquer migração de Windows ficará simples e sem traumas.