NASDEC: Terabytes pra além de Dez Anos: Hardware e Custos

Neste artigo vou descrever a configuração de hardware para o NASDEC – o projeto do nosso NAS redundante e de alta disponibilidade projetado para dar aos nossos dados uma longevidade de 10 anos ou mais. Como prometi, vou descrever todos os componentes em detalhes suficientes para que um leitor interessado possa montar seu próprio NASDEC. Incluí também links para os fornecedores exatos de onde comprei os equipamentos e uma análise detalhada dos custos de aquisição e operação.

Os Insumos Básicos

Os componentes básicos de um NAS são, naturalmente, dispositivos de armazenamento. Então, nada mais natural que começar estudando suas características e custos: cotei as capacidades e preços de alguns HDs de joguei numa planilha, reproduzida abaixo. Incluí também outros equipamentos que sabia que não ia usar, apenas a título de comparação (se seu navegador suportar JavaScript, você pode clicar nos cabeçalhos das colunas para ordenar):

Tipo Item Gigabytes Preço (R$) R$/Gigabyte Fornecedor
MO 100 DVD-Rs Nipponic 470 47,00 0,100 Nagem
HD 2TB Seagate Barracuda 2000 219,00 0,110 ML
HD 1,5TB Seagate 1500 180,00 0,120 ML
HD 1TB Samsung 1000 140,00 0,140 ML
HD 2TB Samsung HD204UI 2000 299,00 0,150 Nagem
HD 2TB Caviar Green 2000 312,00 0,156 ML
HD 2TB Samsung Externo 2000 339,00 0,170 Nagem
HD 2TB Samsung HD203SRA 2000 339,00 0,170 Infohouse
HD 1TB Caviar Green 1000 180,00 0,180 ML
HD 2TB Seagate Barracuda 2000 360,00 0,180 Infobox
HD 3TB Caviar Green 3000 550,00 0,183 ML
Fita Fita LTO Ultrium 800 162,00 0,203 Nagem
HD 3TB My Book Externo 3000 664,00 0,221 Infobox
HD 3TB Seagate Barracuda 3000 670,00 0,223 ML
MO 10 BluRay-R SL Phillips 250 89,00 0,356 ML
MO 10 BluRay-R DL TDK 500 198,00 0,396 ML
MO 100 CD-RWs Nipponic 70 41,00 0,586 Nagem
Fita Fita DLT SuperII 300 377,00 1,257 Nagem
SSD SSD Corsair Force 120GB 120 580,00 4,833 ML
SSD SSD Kingston V100 256 1.300,00 5,078 ML
Flash Pen Drive Kingston DT100G2 8GB 8 46,00 5,750 Infobox
Flash Pen Drive Kingston DT160 16GB 16 104,00 6,500 Infobox
SSD SSD Intel 510 Series 250 1.650,00 6,600 ML
Flash Pen Drive Kingston G3 32GB 32 227,00 7,094 Infobox
Flash MicroSD + Leitor USB 8GB Kingston 8 71,00 8,875 Infobox
Flash Pen Drive Kingston DT200 64GB 64 617,00 9,641 Infobox

Algumas observações:

  • No caso mídias óticas, os preços acima ignoram o custo do leitor/gravador. Além disso, essas mídias não foram realmente projetadas para uso on-line contínuo durante anos. Há quem diga que nem pra arquivamento de longa duração elas prestam, pois seus materiais degradam relativamente rápido. De fato, eu tenho um monte de DVDs gravados a cinco ou seis anos atrás que já não conseguem ser lidos. Todavia, os DVDs superam de longe os primos CDs e Blu-Rays e termos de custo por gigabyte – de fato, ganham até dos HDs, ainda que por uma fina margem.

  • Já os pen-drives, não tendo partes móveis, provavelmente duram um bom tempo. O desempenho da maioria dos pendrives USB 2.0 é fraquinho (uns 20 ou 30MB/s) se comparado com HDs ou SSDs. Mas as capacidades são pequenas e o custo por gigabyte é altíssimo.

  • O custo por gigabyte dos SSDs também os coloca fora de questão, apesar de serem grandes campeões de desempenho: facilmente excedem 200MB/s e têm latência medidas em microssegundos (a dos melhores HDs gira em torno de 10 milissegundos). Além disso, ainda não chegaram à casa dos terabytes. Pelo menos por enquanto, só são justificáveis onde sua baixíssima latência realmente importa.

  • As fitas têm latência tão alta (da ordem de minutos) que são chamadas de "dispositivos sequenciais". Não prestam realmente pra uso online. E eu nunca gostei de fitas; tive toda sorte de más experiências com elas. É da sofrível confiabilidade delas que se originou o ditado que "o problema não é o backup, é o restore!" Houve uma época em que seu preço por gigabyte era o mais competitivo, mas essa época já passou há anos. Na tabela acima, uma dos tipos até se aproxima dos HDs, mas ainda assim perde. Sem falar que as unidades leitoras/gravadoras são caras, difíceis de achar e, se quebrarem, boa sorte com a assistência técnica!

  • A melhor relação a melhor relação entre alta capacidade, ótimo desempenho e custo por gigabyte ainda está firmemente emcapada no terreno dos HDs. O que esses números não mostram é que também são as melhores opções em termos de performance/watt para a faixa de capacidade de terabytes – nem os SSDs ganham deles ainda.

À época em que esse artigo foi escrito, a melhor relação custo/capacidade dos HDs estava nas unidades de 1, 1,5 e 2TB. Os recém chegados HDs de 3TB ofereciam armazenamento colossal, mas a um custo ainda alto se comparado às demais ofertas: três HDs de 2TB podem sair mais barato que dois HDs de 3TB.

Mesmo assim, há dois aspectos que me fizeram escolher HDs de 3TB (mostrados em negrito na tabela acima) como insumo básico:

  • O primeiro é o consumo de energia: dois HDs de 3TB consomem menos que 3HDs de 2TB. Como vamos ver adiante, o consumo de energia é um dos fatores mais sérios no custo total de posse de um sistema que vai ficar ligado durante décadas.

  • O segundo é o novo sistema de armazenamento de dados, conhecido como Advanced Format. Eles adotam um novo esquema de códigos corretores de erros aliados a setores de 4KiB (em oposição aos setores de 512 bytes dos HDs anteriores) que permitem maiores densidades em um mesmo meio físico e maior capacidade de correção (ou pelo menos é o que diz a teoria). Apesar da diferença de preço ser significativa, também não é tão alta assim e, no final, acho que vale a pena.

Mas esses foram os meus critérios; se você quiser priorizar a minimização do custo inicial, sugiro os HDs com melhor custo/gigabyte, próximos ao topo da lista.

Aos muambeiros e ratos de Ebay: eu sei que talvez vocês consigam preços melhores. Mas, para facilitar a reproducibilidade, ative-me apenas ao que se pode conseguir facilmente lojas de Recife ou Mercado Livre, com nota fiscal e dentro das limitações de prazo que eu tinha.

Visão Geral do Hardware

O hardware do NASDEC consiste em dois computadores quase idênticos, que eu batizei de monkey e dinky, baseados na placa-mãe Mini-ITX Intel D510MO com um processador Atom Dual Core rodando a 1,66MHz. Cada computador está com um pente de memória DDR2-800 de 2GB (a placa tem dois slots de memória). Na primeira porta SATA (a placa suporta SATA-II) está ligado o disco rígido de 3TB; a segunda porta SATA está livre, reservada para um próximo HD que pretendo instalar daqui a um ou dois anos. A interface de rede ethernet gigabit de cada uma está ligada via cabos Cat-5e ao switch gigabit da rede local. A figura abaixo ilustra de forma visual os componentes principais e suas ligações.

A figura também mostra dois "extras": há uma segunda placa de rede gigabit no único slot PCI disponível em cada placa, usado para interligar as máquinas diretamente, sem passar pelo switch. Também fiz uma ligação entre uma das portas seriais através de um cabo "null modem". Esses "extras" são opcionais; servem apenas para melhorar o desempenho em um caso particular e ter umas salvaguardas extras. O NAS funcionará perfeitamente se você não quiser incluí-las.

Para os que gostam de ver o que há "sob o capô", eis aí uma foto da placa-mãe:

O kit do gabinete veio com todos os cabos, exceto os ribbon cables das portas seriais – esses eu mesmo tive de fazer. O disco rígido de 3,5 polegadas coube sem maiores problemas, mas, terei de fazer alguma "mágica" quando for instalar do segundo disco, porque o espaço que sobrou foi mínimo. Creio que vai caber, mas vai ficar muito apertado e vou precisar de um cabo SATA com conector em "L".

A placa-mãe tem 7 portas USB 2.0: quatro no painel traseiro, duas no panel dianteiro (via cabos) e uma interna, na forma de um conector "pin header" de dez pinos. Eu fiz um adaptador para um conector USB-A convencional e nele instalei um leitor e um cartão de memória MicroSD de 4GB, que é usado para o sistema operacional. Ou seja, configurei a BIOS para dar boot no primeiro dispositivo USB. Os discos rígidos, mesmo, serão usados apenas para dados.

A foto abaixo mostra, no canto direito, o cartão MicroSD (que eu puxei ligeiramente pra cima na hora de tirar a foto; em operação, ele fica bem firme, inserido totalmente dentro do leitor) espetado no conector que eu fiz (pelas soldas feiosas, dá pra ver que não sou muito hábil com o ferro de soldar). Ao fundo dá pra ver um pedaço do disco rígido e o pouquíssimo espaço sobrando.

Nas fotos acima também dá pra ver o dissipador de calor da CPU e que a placa-mãe é "fanless" – ou seja, dispensa aquele ventiladorzinho (chamdo "cooler") por sobre a CPU. Isso melhora a confiabilidade, pois os coolers estão entre os componentes que mais frequentemente pifam em computadores convencionais, fazendo com que eles fiquem instáveis, travem ou até mesmo pifem por completo. Já as nossas máquinas monkey e dinky não terão esse problema.

Apesar disso, o gabinete já veio com dois ventiladores: um embutido na fonte e outro no topo. Gostei do esquema de fluxo de ar do gabinete: há uns furinhos em baixo e na tampa lateral para entrada de ar, e os ventiladores jogam o ar quente pra fora e por cima. Parece uma besteira, mas isso retarda significativamente a acumulação de poeira. A chatice é que o conjunto todo, com os 4 ventiladores rodando, fica meio barulhento. No meu escritório-em-casa, com os ventiladores ligados, a temperatura externa de cada máquina fica por volta de 33 graus. Experimentei desligar os ventiladores e ela subiu apenas para 36 graus. Mas isso certamente vai aumentar quando eu instalar o segundo disco.

Também experimentei medir a temperatura dos componentes com o gabinete aberto usando um termômetro infravermelho. Quase tudo, inclusive o dissipador de calor da CPU, estava a razoáveis 35 graus. O disco rígido estava a 38 e o componente mais quente, a 42 graus, foi, para minha surpresa, o cartão MicroSD.

A foto abaixo mostra o conjunto montado provisoriamente na minha bancada. Os gabinetes (modelo CI-9E89 da K-MEX) não são especialmente bonitos, mas são compactos (note como a altura do monitor é maior do que a dos gabinetes) e têm uma aparência sóbria. Entre as duas máquinas você vê um HD externo ligado em uma "base" conversora SATA <-> USB apoiada em uma cartolina preta que eu coloquei pra esconder a bagunça de fios. Ele não faz parte do NASDEC; eu o liguei aí para transferir um monte de dados.

Redundância e Confiabilidade

A ideia básica do NASDEC é prover redundância total dos componentes. Temos tudo em dobro: fontes, placas-mãe, discos, rede. O dados nos discos serão espelhados: vamos usar um software que vai copiar automáitca e transparentemente, pela rede, tudo que gravarmos no disco de uma máquina para o disco da outra máquina. Por isso, apesar de termos 6TB de disco, a capacidade efetiva do NAS será metade disso, "apenas" 3TB.

Essa redundância nos compra pelo menos três coisas:

  • Tolerância a panes: qualquer componente individual que pifar não vai parar o serviço, pois temos um sobressalente na outra máquina. O software que vamos usar vai detectar que um dos computadores está fora do ar e usar o outro.

  • Manutenções sem parada: podemos abusar da resistência a panes para resitir também àquelas panes intencionais que chamamos de "manutenção" – poderemos parar uma das máquinas para trocar algum componente, ou fazer algum upgrade de software que requeira reboot, tudo isso sem parar o serviço como um todo.

  • Uso de hardware convencional de baixo custo: Não há necessidade de adotar máquinas com hardware exótico, tipo "fontes redundantes" ou "discos rígidos hot-swappable". Na nossa solução, os componentes redundantes residem em máquinas diferentes, viabilizando o uso de componentes comuns.

O leitor atento deve ter notado que os discos rígidos que eu escolhi são de fabricantes diferentes (o que inclusive encareceu o conjunto em uns R$ 150,00). Isso é a para evitar os chamados "modos de falha comuns": imagine que eu tivesse comprado dois HDs iguais de um mesmo fornecedor; seria razoável supor que eles provavelmente teriam vindo do mesmo lote de fabricação. Se tivéssemos o azar de pegar um lote defeituoso, provavelmente os dois HDs pifariam do mesmo jeito, aproximadamente ao mesmo tempo, quando expostos a condições semelhantes. Usando HDs de fabricantes diferentes, há menos chance disso acontecer.

Isso é especialmente verdade no nosso caso porque o modelo Caviar Green de 3TB da Western Digital é internamente bem diferente do Barracuda XT da Seagate. Este último é composto por cinco pratos de 600GB girando a 7.200 RPM, ao passo que o primeiro tem quatro pratos de 750GB e girando a uma velocidade controlada para dar menor consumo de energia (a WD chama isso de "IntelliPower").

Em tese, eu deveria ter seguido esse mesmo princípio de "redundância dissimilar" com os demais componentes. Por exemplo, eu não deveria ter usado duas placas-mãe idênticas; teria sido melhor usar uma D510MO para monkey e outra placa de outro fabricante, com mais ou menos os mesmos recursos, para dinky. Pretendo fazer isso no futuro; não fiz agora porque não achei, dentro do prazo que tinha, uma outra placa que tivesse mais ou menos os mesmos recursos dentro da faixa de preço que eu queria. Nessa loja no exterior, você pode achar muitos modelos de placas Mini-ITX e inclusive uns gabinetes estilosos, mas, para essa primeira versão do projeto, eu não queria ter de importar nada.

Se você for tentar reproduzir esse projeto com discos de 3TB, atente para o seguinte detalhe: as BIOS de alguns computadores e alguns sistemas operacionais não reconhecem corretamente discos com mais de 2,19TB. Isso pode ser um problema se você for dar boot pelo HD de 3TB. No meu NASDEC, nada disso foi um problema porque a partida do sistema é feita através daquele cartão MicroSD ligado na porta USB. O Linux reconheceu a totalidade do disco de 3TB automaticamente, sem esforço e sem eu precisar mudar nada. Mas ouço dizer que em outros sistemas operacionais e placas-mãe isso pode requerer medidas especiais.

Custos de Aquisição

Segue abaixo a lista do material que eu comprei, com links para as páginas dos produtos nos sites dos fornecedores e com os valores exatos que paguei, inclusive os fretes. Note que, dividindo o custo total pela capacidade de armazenamento, já começamos abaixo do R$ 1/GB que estipulamos nos requisitos.

NASDEC Kiko 2011 – Configuração Inicial 3TB






Item Qtd P. Unit. Frete Total
Kit D510MO + Gabinete Mini-ITX 2 349,00 161,70 859,70
2GB RAM DDR2 800MHz 2 123,00 0,00 246,00
HD 3TB WD Caviar Green 1 550,00 50,00 600,00
HD 3TB Seagate Barracuda 1 670,00 50,00 720,00
4GB Micro-SD + Mini USB Reader 2 50,00 0,00 100,00
Placa de rede gigabit extra 2 50,00 0,00 100,00
Custo total de aquisição


2.625,70






Capacidade Total


3000 GB
Razão capacidade/custo


0,88 R$/GB

Mas há um "truque contábil" aí: além desses, há outros componentes que eu já tinha e, que, por isso, não entraram na conta acima:

  • Um monitor LCD AOC 712Sa de 17" e um KVM Switch D-Link KVM-221 de duas portas: são um conforto, mas não são absolutamente necessários – você pode economizar esse custo usando console via serial, muito embora vai precisar do monitor pelo menos uma vez para fazer uns ajustes na BIOS.

  • Um switch de rede gigabit: o meu é um 3Com 3CGSU08 que, na época que eu comprei, custou foi caro (e, pelo que vejo, ainda está caro). Mas vi no ML pelo menos um custando uns R$ 100,00 e deve ser tão bom quanto. Um switch gigabit é indispensável para se ter desepenho decente. Dá pra fazer tudo funcionar usando apenas switches Fast Ethernet (100MB), mas o desempenho fica pobre.

  • Um UPS (a.k.a. "no-break") Microsol PS-800 e uma bateria estacionária externa Freedom DF-500 de 36Ah. No meu caso, o UPS é indispensável, pois sem ele não há chance de atingir os 99,99% de disponibilidade nos requisitos. Mas você pode certamente omiti-lo se isso não for importante pra você.

Aliás, os certo mesmo é ter dois UPSs e ligar cada máquina no seu próprio UPS – afinal, UPSs também pifam e também precisam de manutenção periódica, nem que seja para trocar a bateria (o que ocorre a cada 24 ou 36 meses). Na Tempest, fizemos assim, pois lá já temos dois circuitos elétricos independentes. No meu escritório-em-casa, para minimizar o custo inicial, eu pendurei a máquina monkey no UPS e por enquanto deixei dinky na rede elétrica normal, já abusando um pouco da redundância. No futuro talvez eu compre outro conjunto UPS + Bateria.

A planilha abaixo mostra os custos totais e amortizados por gigabyte para vários cenários de proteção de energia elétrica vs capacidade total de armazenamento:


Preços dos Componentes Adicionais Cenário 3TB Cenário 6TB
Cenário UPS Baterias Total Total Geral R$/GB Total Geral R$/GB
Sem UPS 0,00 0,00 0,00 2.625,70 0,88 3.845,70 0,64
1 UPS (apenas bateria interna) 370,00 0,00 370,00 2.995,70 1,00 4.215,70 0,70
2 UPSs (apenas baterias internas) 740,00 0,00 740,00 3.365,70 1,12 4.585,70 0,76
1 UPS + Bateria Externa 370,00 260,00 630,00 3.255,70 1,09 4.475,70 0,75
2 UPSs + 2 Baterias Externas 740,00 520,00 1.260,00 3.885,70 1,30 5.105,70 0,85

Conclusão: é possível obter um custo de aquisição menor que R$ 1/GB nas configurações de maior capacidade (em verde) e até mesmo nas que oferecem maior redundância. Algumas configurações de "interim" de menor capacidade, é que cruzam a nossa barreira de R$ 1/GB (itens em vermelho).

E digo mais: se não precisarmos de toda a capacidade logo de saída (como costuma ser a maioria dos casos), vale a pena deixar para adquirir o segundo par de discos daqui a alguns anos – até lá, é provável que já existam discos de 4TB pelo mesmo preço dos discos de 3TB de hoje. Isso aumentará a capacidade total do NAS sem aumentar seu preço total, diminuindo ainda mais o custo amortizado por gigabyte. E ainda há uma vantagem de confiabilidade: fazendo um rodízio de forma a que os discos espelhados tenham diferentes idades, diminui-se ainda mais a chance de falhas simultâneas por "mortalidade infantil" (o termo que se usa para qualificar aqueles equipamentos que pifam quando ainda semi-novos).

Custos de Operação

A sabedoria convencional no projeto de servidores de arquivos é usar os melhores processadores e placas-mãe, para dar bom desempenho. Por isso, talvez cause espanto que eu tenha usado um Atom, um processador considerado anêmico que a maioria das pessoas associa com "netbooks baratinhos porém ordinários". Mas a razão é simples: ele vai dar perfeitamente conta do recado em termos de desempenho, só que consumindo menos da metade da energia de um computador convencional.

O manual de especificações técnicas da D510MO, na página 61, dá conta que seu consumo mínimo é 21 Watts; cada HD consome, arrendondando pra cima, uns 10W. Assim, com um HD eu teria um consumo de 31W por máquina e com 2 HDs uns 41W. As duas máquinas juntas consimiriam 82W, o que é substancialmente menos que um único computador de mesa convencional – os mais fastiosos entre eles consomem não menos que 100W, e os de alto desempenho facilmente excedem os 200W.

Aqui no meu sistema, percebi uma anomalia, porém: o software de gerenciamento do meu UPS PS-800 permite medir o consumo dos equipamentos que ele está alimentando. Usei esse treco para medir o consumo da máquina monkey e descobri que ela está consumindo uns 42W, que é 11W acima do que eu esperava.

Suspeito (mas ainda não tenho certeza) que o problema seja a fonte (uma K-MEX modelo PD-150) que veio nesse gabinente; a capacidade nominal dela é de 150W, mais do dobro do que precisamos. As fontes chaveadas são tipicamente projetadas para operar eficientemente com cargas entre 60% a 80% do nominal. Como o computador consome menos que metade da carga nominal, a fonte deve estar operando em um regime ineficiente, com o seu consumo vegetativo dominando a produção útil.

Isso faz uma diferença danada. A tabela abaixo mostra os custos mensais, anuais e para dez anos para máquinas que passem 24h/dia ligadas (como será o caso do NASDEC) de acordo com seu consumo. Eu assumi o custo de R$ 0,50/KWh, que é um arredondamento pra cima dos 0,49XXX que costuma vir nas minhas contas de luz.


NASDEC Comparativo com Outros Sistemas
Item / Cenário Atual Meta Desktop Típico Desktop “Gamer”
Consumo (Watts) 84 60 100 300
R$/KWh (tirado da conta de luz) 0,50 0,50 0,50 0,50
Custo Mensal 30,74 21,96 36,60 109,80
Custo Anual 368,93 263,52 439,20 1.317,60
Custo para Dez Anos 3.689,28 2.635,20 4.392,00 13.176,00

Note que com as duas máquinas do NASDEC consumindo 84W, ao longo de dez anos eu vou pagar mais pela energia elétrica do que pelo equipamento em si. Para os custos se equalizarem, eu deveria dar um jeito de fazer com que elas não consumam mais do que 60W (o consumo de um notebook típico), ou 30W para cada uma. E essa análise assume que o custo do kilowatt-hora não aumente, o que é improvável.

Há ainda o custo da manuntenção das baterias do UPS:

  • Se usarmos apenas as baterias internas (tipicamente de 7 ou 9Ah) que vêm nos UPSs, elas precisam ser trocadas a cada dois anos e custam uns R$ 150,00. Isso se traduz em R$ 750,00 em dez anos para o cenário de apenas um UPS ou o dobro disso para o cenário de dois UPSs.

  • Se usarmos baterias externas, precisamos acrescentar também o custo de trocá-las. Na minha experiência, boas baterias estacionárias duram entre três a quatro anos. A um custo de R$ 250,00 para uma típica bateria entre 36 a 50Ah, temos três trocas em dez anos ou R$ 750,00 para o cenário de um UPS ou o dobro disso no caso de dois UPSs.

A essa altura deve estar abundantemente clara a razão de eu ter escolhido um computador de baixo consumo: nossos requisitos especificam que o custo de operação não pode ser muito alto, sem falar na vantagem adicional de estender a autonomia e vida útil dos UPSs e suas baterias.

Por fim, vale lembrar que esses custos supõem que nada pife. Se algo pifar, naturalmente incorreremos nos custos de substituição. Por outro lado, a esperança é que redundância nos dê o conforto de poder fazê-las sem tanta pressa e sem causar a inconveniência da parada nos serviços.

Comparativo com Outras Alternativas

Para ver como nossos custos se comparam com a realidade de mercado de soluções de NAS semelhantes, fiz uma cotaçãozinha rasteira:


Configuração Mínima Configuração Máxima
Fabricante/Modelo Gigabytes Preço R$/GB Gigabytes Preço R$/GB
NetGear RND 2150 500 1.600,00 3,20 2000 2.200,00 1,10
Iomega Storcenter Ix2-200 1000 1.090,00 1,09 2000 1.267,00 0,63
Seagate BlackArmor NAS-440 2000 1.898,00 0,95 6000 3.402,00 0,57
Western Digital WDA4NC40000N 2000 1.880,00 0,94 4000 3.323,50 0,83

Ressaltei em verde os números melhores que nossa meta de R$ 1/GB e em vermelho os números maiores que isso. Mas há alguns detalhes:

  • Coloquei as capacidades supondo espelhamento de disco. Ou seja, se o produto anuncia uma capacidade de 4TB, eu coloquei 2TB na tabela, pois a redundância divide a capacidade por dois;

  • Os números em laranja são estimativas: cheguei neles calculando uma "taxa de câmbio" dividindo o preço do produto em reais no ML pelo preço do mesmo produto em dólares na Amazon, depois multipliquei pelo preço do produto de maior capacidade tal como figura na Amazon. Não sei, realmente, se esses produtos chegariam aqui por esses preços, nem se, nem quando, estariam disponíveis.

Comparando os valores na tabela acima com os que obtivemos anteriormente, vemos que o custo de aquisição por gigabyte do NASDEC não faz feio frente às soluções prontas de mercado. E vale lembrar que as soluções acima só oferecem redundância de disco, ao passo que o NASDEC oferece redundância de todos os componentes. Se você comprar alguma das soluções acima e a fonte ou a placa mãe do equipamento pifarem, você vai ter um transtorno (mas não necessariamente perderá seus dados, pois os discos poderão ser removidos e colocados em algum outro computador).

Além disso, cumpre lembrar que o nosso NASDEC oferecerá um recurso que nenhuma das soluções acima têm: cifragem dos dados em tempo real, para atingir o requisito de nossos dados não caírem em mãos erradas em caso de roubo.

Conclusões e Próximos Passos

Para os leitores que tiveram a paciência de ler esse longo artigo, espero que se sintam recompensados com um entendimento mais aprofundando das várias questões envolvidas quando se tenta projetar sistemas de longa durabilidade e tolerantes a falhas. Optei deliberadamente por uma abordagem coloquial na tentativa de tornar acessível um assunto doutra feita enfadonho, mas procurei sacrificar o mínimo possível o rigor técnico.

Aliás, como eu vivo dizendo, segurança (aqui usada no sentido de resistência aos diversos cenários de falha) é apenas uma dentre as prioridades desse projeto. Outra, quase tão forte, é o custo – evidenciado pelas diversas planilhas que mostrei. Acho que bem menos gente se sentiria tentada a montar seu prório NASDEC se eu não tivesse mostrado que os custos dele são compatíveis com os de outras soluções de mercado.

Inclusive, seria perfeitamente possível aumentar o nível de redundância acrescentando mais máquinas: a pilha de software que vamos usar suporta espelhamento triplo, quádruplo, etc. Mas, naturalmente, os custos de aquisição e operação sobem proporcionalmente. Cabe ao projetista balancear esses quesitos conflitantes.

Nos próximos artigos dessa série, vou discorrer sobre as diversas camadas de software que realmente fazem esse par de máquinas se transformar em um NAS à prova das décadas. Na ocasião, terei chance de discutir também os planos de manutenção e tratamentos de falhas.

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Carla | 2012-02-24 11:46:07 | permalink | topo

Boa tarde, será que me pode ajudar! Tinha um disco externo de 2Tb que avariou, tive de Comprar uma nova caixa externa para ele, no entanto reparei que a caixa só suportava 1,5Tb. Ele funciona, mas será que vou ter problemas? Obrigada