A Ciência do Medo, de Daniel Gardner

Terminei de ler o livro The Science of Fear do jornalista canadense Daniel Gardner. Gostei e recomendo.

O livro começa bem, com um prólogo magistral mostrando um caso onde o medo matou quase 1600 pessoas: o aumento no número de acidentes automobilísticos fatais, no ano após o onze de setembro, devido às pessoas que preferiram viajar de carro porque ficaram com medo de voar.

Em seguida, o autor discorre sobre os resultados de mais de vinte anos de pesquisas em psicologia, mostrando como a maneira que os seres humanos avaliam riscos é "irracional" – ele mostra como todo mundo tem uma espécie de "dupla personalidade": uma parte "intuitiva" que faz avaliações rasteiras, baseadas nos acontecimentos recentes e outras pistas imediatistas, para chegar a conclusões rápidas e úteis, mas às vezes erradas; e, também por isso, essa parte intuitiva é impressionável e manipulável, coisa que a mídia e os políticos sabem muito bem. Já a outra parte, a "racional", é ponderada, mas lenta e raramente ganha um embate com a parte "intuitiva". A ciência confirma a experiência: tendemos a agir por impulso, especialmente nas crises; e a razão raramente tem chance contra nossos impulsos.

O livro é recheado de estatísticas interessantes e me diverti bastante com os vários exemplos que ele demonstrou da mídia distorcendo a interpretação das estatísticas e resultados científicos para gerar manchetes atraentes na marra – é raro ver um jornalista espinafrando os jornalistas com tanta elegância (em momento nenhum ele soa arrogante), embasamento e propriedade. Do meio pro fim, achei que o livro desandou um pouco, pois ele fica repetidamente mostrando como os mesmos princípios se aplicam a diferentes casos. O final é bom, mas fiquei com uma sensação vaga de que podia ser melhor.

O autor aborda um aparente paradoxo que não cansa de me fascinar: provavelmente somos a geração que tem mais segurança em toda a história do planeta. Vivemos numa época em que a medicina transformou em triviais doenças antes mortais, elevando nossa expectativa de vida em mais de trinta anos; onde a tecnologia nos dá um conforto e segurança que nossos antepassados julgavam inatingíveis. Mas, ao aprender a reduzir muitos tipos de risco na prática, nossa geração desaprendeu a lidar emocionalmente com eles, pois vivemos com medo: medo da violência urbana, medo de sequestros, medo do avião cair, medo de armas, medo da criança se afogar na piscina, medo de terrorismo.

O medo é útil apenas até onde nos torna cautelosos; se exagerado, paralisa-nos, e ninguém quer viver paralisado. E como Gardner mostra muito bem, nunca houve uma época tão boa e segura de se viver como a nossa. Parafraseando Roosevelt, hoje em dia, a coisa mais séria a temer é próprio medo.

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