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A abordagem dos jogos estratégicos

Os jogos estratégicos são parte integrante do treinamento para a arte da guerra desde tempos remotos. Como tradição ancestral, ainda hoje, nas aldeias silvícolas remanescentes, há dias e cerimônias consagradas aos jogos de guerra.

Tais jogos evoluíram de uma forma bastante abstrata de representação da realidade (como o Jogo de Xadrez Militar de 1781), passando pelos jogos de tabuleiro empregados até hoje, e chegando aos atuais jogos de guerra assistidos por computadores, que simulam a realidade dos combates ou a dos envolvimentos estratégico/operacionais [da Silva, 2007].

Segundo Peter Perla, um Jogo de Guerra é melhor definido como “um modelo ou simulação de uma guerra (warfare), cujas operações não envolvem, necessariamente, o emprego real de forças militares, cuja seqüência de eventos afeta, e por sua vez, é afetada pelas decisões tomadas pelos jogadores, que representam lados que se opõem” [Perla, 1990].

Tais jogos tornaram-se, com o tempo, prática comum e fartamente documentada com o advento das academias militares, fazendo parte do currículo básico para a formação do oficialato de qualquer arma. É comum, inclusive, os jogos de guerra combinados, envolvendo as várias forças convencionais (naval, aérea e terrestre), implementando simulações de guerra em tempos de paz, prevendo conflitos em cenários projetados, de forma a testar a validade de ordens de batalha discutidas em salas de aula.

Também é prática comum os jogos envolvendo manobras militares entre nações aliadas (por exemplo, de países membros da OTAN ou do antigo Pacto de Varsóvia, que congregava os países socialistas e comunistas antes da queda do Muro de Berlim).

No Brasil, os jogos estratégicos envolvendo as forças navais remontam desde 1916, e acontecem anualmente, salvo contratempos orçamentários. Recentemente, com a inauguração das instalações do novo Centro de Jogos de Guerra (CJG) e a utilização do novo Sistema Simulador de Guerra Naval (SSGN), ficou patente a necessidade do aperfeiçoamento dos procedimentos até então adotados pelo Setor de Jogos, na execução dos diversos jogos na EGN – Escola de Guerra Naval. Foi, então, proposta “a elaboração de uma metodologia de projeto (criação) de Jogos de Guerra, que usando o conhecimento estabelecido há anos, proporcionasse um meio de fácil modelagem dos problemas militares estudados pela escola para o jogo” [Castro, 1990].

Dentro deste esforço estão sendo propostos trabalhos acadêmicos que aprofundem os conhecimentos de assuntos correlatos aos Jogos de Guerra, tais como Teoria dos Jogos e Criação de Jogos de Guerra. Daí depreende-se que o Jogo de Guerra, portanto, é uma ferramenta de auxílio à decisão. Através da modelagem de problemas (situações) militares e da simulação dos cenários que envolvem estes problemas, apresentam um conjunto de eventos relacionados às estratégias adotadas pelos participantes (jogadores), as quais definem seus caminhos para a solução, culminando com a consecução dos objetivos do jogo [McHugh, 1966].

Teoria dos Jogos e estratégia

A Teoria dos Jogos é um ramo da matemática aplicada que tem se mostrado bastante valiosa nos jogos estratégicos. É usada em Ciências Sociais (mais notadamente na Economia), Biologia, Engenharia, Ciência Política, Ciência da Computação (notadamente em Inteligência Artificial) e Filosofia. Tal abordagem, tenta matematicamente capturar comportamentos em situações estratégicas, no qual o sucesso de um jogador em efetuar escolhas irá depender do comportamento e escolhas dos seus oponentes.

Inicialmente concebida para tratar de problemas conhecidos como jogos de soma zero (i.e., o ganho de um implica necessariamente na perda do outro), tem evoluído a ponto de tratar diversas situações muito mais complexas (como por exemplo, os jogos cooperativos). Aplicações tradicionais em Teoria dos Jogos tentam, por exemplo, encontrar situações de equilíbrio em tais jogos (conjuntos de estratégias na qual os indivíduos ficam susceptíveis a mudar seus comportamentos). Vários conceitos relacionados à condição de equilíbrio tem sido desenvolvidos (sendo o mais conhecido o Equilíbrio de Nash), na tentativa de capturar esta idéia.

Em 1944 John Von Neumann e Oskar Morgenstern lançaram o livro seminal Theory of Games and Economic Behavior, apesar de alguns desenvolvimentos serem anteriores a esta data. A teoria avançou na década de 1950, e mostrou-se útil também na Biologia na década de 70. Oito teóricos em Teoria dos Jogos foram agraciados com prêmios Nobel em Economia, e um obteve o prêmio Crafoord por aplicações na Biologia.

A Teoria dos Jogos tambem tem desempenhado um crescente papel na Lógica, onde algumas teorias lógicas tem como base a semântica dos jogos. Adicionalmente, cientistas da computação tem usado os jogos para modelar computação interativa e provendo bases teóricas no campo dos sistemas multi-agentes. Tambem notável é o papel desempenhado pela teoria no que é conhecido como k-server problem, que no passado chegou a ser referido como jogos com custos variáveis [Koutsoupias and Papadimitriou, 1995].

A Teoria dos Jogos prevê que, situações que envolvem interações entre agentes racionais que se comportam estrategicamente podem ser analisadas formalmente como um jogo. Os Jogos de Guerra, aparentam ser um caso típico, e não é sem razões que a teoria é cada vez mais utilizada nestes.

O cenário de uma ciberguerra aparenta não ser exceção, uma vez que se adequa perfeitamente aos requisitos da teoria dos jogos, senão vejamos:

• O jogo pode ser posto como um modelo formal;

• Há interações/ações por parte dos participantes que afetam as ações dos demais, e vice-versa;

• Os agentes são racionais;

• O comportamento dos participantes é estratégico.

(continua no próximo post).

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